Monday, March 23, 2009

CENA VII

( Samir, vai até a porta,abre até o canto as duas partes.Vai até uma caixa,retira dela alguns utensílios.O Jovem entra na venda.Fixa os olhos nas caixas.Olha para todos os lados fazendo gestos.Samir,ao se virar,vê o Jovem observando os produtos).

SAMIR:–Vai ficar aí estancado até quando? Se não vem pra comprar,pode dar meia volta e se mandar.
JOVEM:–Queria ver com os meus próprios olhos.
SAMIR:—Já viu? Agora pode ir! Diga pra sua mãe que nós agora tem bucho fresquinho.
JOVEM:–O senhor é rabudo mesmo! Receber o objeto do roubo com juros é demais.
SAMIR:–Que tá dizendo aí,hein?
JOVEM:–É um homem largo o senhor.Vai ter sorte assim…com juros e tudo!( O Jovem sai de cena comentando pra si)
SAMIR:–Esse aí é doido de pedra.(Continua a colocar as mercadorias.Quando se vira novamente,a Dona Aser ali,parada a observá-lo) Todo mundo acha que a senhora está morta.
ASER:–Brincadeira tem hora seu Samir! Muita gente quer é ver os velhos desocupar lugar.E estão de olho é nos meus ganhos.
SAMIR:–A senhora somiu um fim-de-semana inteiro. Quando alguém some,ou tá preso,ganhou na loteria,ou morreu.
ASER:–De vez enquanto,é bom dar uma sumidinha.Pro senhor ver, já estão sentindo a minha falta.Estou bem,e a vida continua.Viva seu Samir,bem viva!
SAMIR:–Al Alsair dona Aser! E nós aqui se derramando em lágrimas por saudade da senhora.
SER:–Vou acreditar! Estou com pressa seu Samir.E o dinheiro?
SAMIR:–Alá seja louvado mais uma vez pela senhora.Nós escondeu de tal maneira, que nem nós tinha certeza do lugar.
ASER:–Com o senhor,o meu dinheirinho está em segurança.Ainda tenho que fazer muita coisa seu samir.Tenho pressa,se apresse!
SAMIR:–O dinheiro da senhora?.. nós quer agora é saber pra onde a senhora andou.
ASER:–Vamos deixar do jeito que está.
SAMIR:–Não,não vamos não! A senhora me deve explicação.Deve explicação à todos os do bairro.Que fedor era aquele que saia da casa da senhora?Todo mundo achava que o seu corpo derretia lá.
ASER:–Ah,isto eu posso explicar! naquele dia.Eu já arrumada pra sair.Fui visitar a minha irmã…o senhor sabe que uma vez por mês,eu visito a minha irmã.Mas,na hora que eu ia sair,o Lúcio…o senhor sabe quem é o Lúcio não sabe?
SAMIR:–Sei quem é.
ASER:–Pois é,o Lúcio e a esposa,aparece bem na hora que eu ia sair.Pra que? Pra comprar o tal do terreno que tinha posto pra vender.
SAMIR:–E de que lugar ele tirou o dinheiro pra comprar o terreno da senhora?
ASER:–O senhor não sabe?Todo mundo sabe,menos o senhor! (Dá uma risadinha) A mulher…mulher sortuda!! Ganhou nos números da loteria.O dinheiro era a quantia certa pra comprar o terreno.. admiro a inteligente dos dois! Eu,de um lado emocionada pela venda.Do outro,pela sorte da mulher.Na conversa toda,me esqueci da hora.E tinha colocado a carne pra descongelar em cima da pia.Juntando tudo! Se eu fosse àquela hora pro banco colocar o dinheiro,não ia dar tempo.Foi aí que me veio a sua imagem à cabeça.
SAMIR:–Nós! Pau pra toda obra né! A senhora deixou em nós dois sofrimento,se a senhora morre,nós não pode gastar o dinheiro.Se os ladrão leva o dinheiro da senhora nós ter que pagar.E é muito dinheiro.Agora nós perde o dinheiro pra seu legítimo dono.(Samir vai nos fundos da loja,pega o embrulho com o dinheiro,entrega-o a dona Aser.Ela abri o embrulho)
SAMIR:–Pode conferir dona Aser.Pode conferir!
ASER:—É isso não seu Samir.(Ela retira algumas notas e dá ao Samir)
SAMIR:–Pra que isso dona Aser?
ASER:–Não estou lhe pagando nada.É só pra compensar a espera.Se fosse pra pagar.Esse dinheiro não seria o suficiente.(Ela se despede e sai agradecida e feliz)
SAMIR:–Munheca! Uma merdinha de nada.Era melher não dar nada.

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CENA VIII


(No bolso da camisa,Luiz encontra uma carta.Ao som do BOLERO DE RAVEL,começa a ler). É,a vida toma rumos que a gente não percebe,ou nunca imagina.Quem imaginaria que ontem,ou a alguns minutos atrás,eu comia a minha última refeição.A vida é assim! Num minuto,tudo cai,a vida vira,e a gente morre.Quem imaginaria que num teste para um trabalho efetivado fosse dar no que deu?Não sei se por mim,ou…os comprimidos começam a me deixar sem opção.A casa…a nossa casa,você vai gostar de lá.Que rua tranquila é aquela rua!A preciosidade do patrão criou asas…sumiu!!Não culpo eu, nem culpo o Luiz.Não me pergunte quem foi.A culpa é da nossa falta de tato,não admistramos bem a propriedade alheia.Fomos chamados para tomar conta dos bens…nem fomos contratados. É a fase das primeiras semanas da esperiência.Foram as nossas primeiras noites.Que noites!!Estou indo,comigo a culpa vai…O Luiz? O Luiz fica livre da pressão,e da incapacidade de servir. Diz que escrevi a verdade,o… ele não,nunca entenderá.Pra semente nascer,a semente tem que morrer.A gente nada leva daqui,mas fica…os zumbidos na cabeça…é estranho! O corpo pesa…começa um formigamento. Não queria ficar no esquecimento…ninguém espera a hora,e eu estou fazeno a minha! coação?…É,coação! Entende? Tem motivo? Motivos sempre tem,e um abismo leva a outro abismo…A mão não consegue segurar a caneta com firmeza…é a hora do descanso do guerreiro.( Luiz coloca as mãos no rosto) Me dei tão pouco…e…tanto sacríficio por tão pouca coisa.A gente é pó,volta ao pó…é a hora do descanso mesmo.Aproveite bem a sua nova casa.
LUIZ:-Desgraçado! (Remexe os bolsos) Nenhum comprimido.Egoísta! Quem vai acreditar numa coisa assim? Ninguém vai acreditar em mim..(Luiz sai da sala.Entra pela porta que está aberta.Volta com uma corda amarrada no pescoço.Nas mãos trás uma cadeira.Coloca a cadeira debaixo de uma viga de aço que se sustentava na parede perto de uma entrada bem pequena,por onde os raios do sol entrava.Sobe na cadeira.Joga a corda sobre a viga de aço.Fica nas pontas dos dedos.É um a dificuldade ardida,doida.Quando percebe que não suporta mais,se joga empurrando a cadeira para o lado.Fica ali dependurado o corpo a balançar. Ja é o outro dia.Ouvi-se assovios,ranger de portas.Chaves entrando em fechaduras.Um foco de luz ilumina um homem que entra com um molho de chaves nas mãos.Em baixo do braço,um pequeno baú.
SAMIR:- Que escuridão!( Ele ainda não vê os corpos) Que silêncio! Os dois dorme com certeza.Não tem barulho nenhum.Pra o Senhor ver Alá,nem bem passou pelo teste,já estão dormindo no serviço.Olhei no quarto do corredor,lá não tem ninguém.Aqui também,não vejo.Ah não ser…(Para pasmo quando se depara com o corpo esticado de Lúcio) é disso que estou falando,dorme igual a uma pedra.(Vai balançá-lo,quando vê o corpo de Luiz dependurado a balançar) E isso agora?(Olha um, olha o outro.Deixa de sacudir Lúcio.Aí vê a carta.Pega-a lê.) Viu o que fez você pra nós Alá? ah Alá! Pra que uma coisa desta?Com tanto aconteceimento Nós tinha esqucido os coitados aqui.Nós nunca ia imaginar uma coisa assim.O senhor sabe que antes de confirmar o empregado,nós põe a prova.Mostra todo o nosso patrimônio pro candidato.Fala pra ele que tem de olhar de vez em quando tudo que tem lá dentro.Aí nós vem pela entrada secreta.Pego o objeto que não pode ser roubado.Se no dia seguinte o candidato conta pra nós que sumiu alguma coisa.Está assustado.Este é um bom empregado.Se não conta,este nós não quer.É um mal empregado.Nós precisa de gente de confiança.Nós não podia imaginar que fosse ter esse fim.(Samir passa a mão na cabeça.Olha pra um e para o outro.Rasga a carta em pedacinhos,coloca na boca e mastiga.Depois cospe no chão).Agora nós tem de chamar as famílias.Eles toma as providências.. esses dois…o jeito é chamar a familia mesmo.O Senhor põe nós em cada enrascada! (O BOLERO DE RAVEL AUMENTA ATÉ O FIM)

FIM.

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Thursday, November 13, 2008

                             TÊ 

Uma cadela mansa,jamais ataca uma pessoa.Ela lhe deixar se achegar à ela.Até lambe a sua mão.Quando a gente menos espera,ela chega de mansinho,morde o calcanhar da pessoa.

(Maria tereza está à janela olhando quem passa.Vai dizendo bom dia, um a um).
TEREZA:-Bom dia seu Jenuino! Como é,colhe ou colhe a roça? Com a geada que tem dado né mesmo!Esse aí planta dois grãos de milho,quer colher duas toneladas.Tem a paciência! Bom dia Dona Aurora! Tá vindo aí! O cata osso inda não chegou.Sabe como é,tem dia que atrasa,tem dia fura pneu no caminho, e nem vem. É Maria Elvira a minha irmão que vem passar o fim de semana aqui comigo.Nesta cidade, o sossego que é,serve de refresco pra que vem.Lá na cidade dela é…a paz do Senhor pastor!Olhe nesta semana não vou poder ajudar na igreja.Vou ter que fazer gosto a Maria Elvira,minha irmã!…a cidade dela…olha lá! Vem ele fumegando feito maria-fumaça.(Ônibus pára diante da venda.Tereza vê a irmã sair do ônibus.Fecha a janela.A irmã bate uma vez,duas vezes.Na terceira vez Tereza abre a porta)
ELVIRA:-Pensei que não morasse mais aqui.Deus me livre fazer o trajeto todo de volta.Eu não ia suportar.Quanta poeira há nestas estradas.Parece que a gente está dentro de uma maquina de lavar roupa.
TEREZA:-Meu Deus do céu,é ocê Maria Elvira?Tava na cozinha passando o café.Nossa,como cê tá magrinha! Como esses brancinhos conseguiram carregar estas duas malas da venda até aqui? Devia ter pedido,que seu Juca mandava o menino ajudar.Pra que tanta mala?Pra quem vai ficar só um fim de semana! Deve de tá entupida de roupa.Aqui não tem nada pra ver.Essa cidade é muito quieta.De vez enquanto morre um pra tirar o sossego da gente.Cidade de pouca gente.
ELVIRA:-Talvez não fique nem uma semana.
TEREZA:-Deixa estas malas aí.Vem cá pra cozinha.O café tá pronto!Cê deve de tá cançada.Viajou a noite toda. Esse cata osso parece um moinho d’água.Se quiser tem sabão,toalha e água é o que não falta.Vai lavar o rosto e as mãos.(Ela vai até o banheiro,volta com as mãos pingando água)Toma a toalha,enxuga estas mãos.(Pega o pano de chão e vai secando as gotas)Meu ladrilho,meu ladrilho!
ELVIRA:-Descansa Tereza!Nem ladrilho isto é.Ardósia é que é!
TEREZA:-Pode me chamar de TÊ,é curtinho.Bonito, e fácil de pronunciar.Todo mundo aqui me chama de Tê.
ELVIRA:-Eu sempre a chamei deTereza.Não é agora que vou mudar
TEREZA:-Não custa nada! Vou levar a mala lá pro quarto.Que tem dentro? É chumbo é?Nossa que peso!

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ATO I

DE CORPO PRESENTE:

                                         CENA I

(Tereza está na janela, vê um menino correndo, grita).
TEREZA:-Vai pra onde com essa pressa toda? Ouvi,claro que ouvi!
É o sino tocando pra anunciar a chegada do padre?
Quem menino?O coronel Deudato da Fonseca o que? Caiu o que? Morto?..
Espera aí menino,espera aí. Fala mais devagar! Pára de correr e fala menino!
ELVIRA:-Quem caiu morto Tereza?
TEREZA:-Tô tão acostumada com quem me chama de
Tê,que até me esqueço que me chamo Tereza.O coronel Deudato da
fonseca caiu morto!Tava dando milho pra galinhas.Caiu com a língua de
fora.Morreu!O homem tá no inferno.Nunca fez nada de bom pra esta cidade.
E o padre já começa com um defunto pra encomendar.
Já vai….Olha lá o
cata osso já chegou.É o padre descendo com uma mala na mão.É
moço!Muito moço o coitado.Tá aproximando,tá aproximando! Boa tarde seu
padre! Fez boa viagem?Chega sempre atrasado seu padre,quando não quebra
no caminho,atrasa.(Dirigindo-se a Elvira)Só abanou a cabeça.Padre
metido! É o que eu digo,salvos aqui,só nós os Batista.O resto,Deus tenha
piedade,estão é no inferno.Mas ainda há tempo,se se converter de todos
os seus pecados.
ELVIRA:-Vou tomar um banho,me vestir,sair por aí pra ver,e ouvir as novidades.E conhecer o tal padre.
TEREZA:-Trocar de roupa pra que? Esta ainda tá limpinha!É casada,mas não honra o nome do marido.Basta sentir cheiro de homens que já se arreganha toda.Essa aí não consegue se manter de pernas fechada.
ELVIRA:–(Chega à porta enrolada numa toalha) Ouvi viu! Com a mesma medida que mede,será medida.A boca fala do que está cheio o coração.
TEREZA:–Eu hein! Agora essa!

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CENA II

TEREZA:-( à janela) Bom dia seu Juca! E as crianças?O senhor continua a mancar?
Tô vendo! Vá à igreja seu juca!O pastor faz uma oração forte,o senhor vai ficar curado.Joga esta moleta fora seu Juca.Com jesus tudo é possível!Vai mesmo,vou ficar esperando…Vai indo dona Maria da coves.Pois é, se fosse na fazendo do falecido,eu ia.Em casa de pecadores não entro.No cemitério que nos recebe de braços abertos…Hi foi? Essa gente não respeita nem os mortos.Vou ficar esperando hein!
ELVIRA:-De que respeito está falando?
TEREZA:-É dona Maria das coves me dizendo que foi uma confusão no velório.
ELVIRA:-Acabou logo.Um homem quis apontar qualidades e defeitos do coronel.
TEREZA:-E a missa foi rezada?
ELIVIRA:-Em latim!O padre disse que não tem costume com esse tipo de
situação.Rezou a missa em latim.De costas para o povo.Dizia
palavras que ninguém entendia.Foi uma missa de velório mesmo.Língua morta, para um morto indecente.
TEREZA:-Deus me livre! Latim não a língua falada pelos padres na cidade dos padres?
ELVIRA:-É uma língua morta.Ninguém fala mais…Estive pensando enquanto olhava a cara do coronel!..Uma coisinhas!!!Quantas crianças retiraram balas na algibeira do coronel?Ele mandava a criança enfiar a mão dentro da algibeira.Bala mesmo a coitada não pegava.Ainda te lembras Maria Tereza?
TEREZA:-Que cheiro esquisito tô sentindo aqui.Tá com jeito de telha queimada.
ELVIRA:-A coitada da mamãe correndo contigo pra tirar a criança,filho do coronel?O papai não podia saber…Ah,Tereza!
Nenhuma criança aqui escapou das balas do coronel.Nem eu! Pra mim era estímulo.Como eu gostava de procurar as balas na algibeira do coronel.
TEREZA:-Tem rato morto em baixo desta cadeira.(Procura o rato)Será a minha mão? Lavei as minhas mãos inda agora.
ELVIRA:-Uma noite pra relembrar.E o coronel?.. Se regenerou Tereza?Falo de continuar colocando balas na algibeira…Não,as crianças de hoje são mais sabidas.
TEREZA:-Passando pano no assoalho deve tirar o cheiro.Cheiro de rato morto empestea toda a região.E dona Maria das coves que não vem.Esse rato tá precisando é de uma ratoeira..Tão símples é vida,que a gente nem percebe..E o trabalho que dá pra criar uma criança nos dias de hoje.Será que a dona Maria das Coves se esqueceu de mim?
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ATO II

REVELAÇÃO 20:3

TEREZA:-Vai sai? Trocou de roupa.Essa menina pensa que aqui é cidade grande.
Troca de roupa,como quem troca o perfume.
ELVIRA:-É pra ser apreciada mesmo.De proposito!Gosto de sair limpinha.
(Elvira sai,Tereza vai pra janela)
TEREZA:-Vê se não volta tarde.Não vou ficar esperando, até tarde da noite.
como vai comadre Ana?Que foi aquilo comadre?Gente gritando feito cachorros brigando.O Juventino é? Que fez o Juventino desta vez?Foi esfaqueado? por quem comadre?Deus
me livre.Um dia isto tinha que acontecer.O homem gostava de fazer os outros beberem a força.Se não bebia,ele esfaqueava.Gostava de bater na cara dos bestas daqui.E nem morar aqui mora.Ele pega o seu cavalo e vem pra cá berber,raparigar e insultar os besta desta cidade.Quando o coranel era vivo, peitava o valente.Agora com o coronel morto.Ainda bem que apareceu um de coragem.Ou…Agora é orar pro cão morrer,senão coitado do camarada…quem foi mesmo comadre Ana?Ninguém viu?O povo tá é com medo de delatar o bem feitor. Ouvi! E aquilo era pedindo água? Deus me livre,vou lá não! Agora é um morto atrás do outro.O cemitério não vai mais cabê tanta gente.Duma hora pra outra,né comadre? E ninguém sabe como isto acaba. Cadê os homens que não acode o malvado?Já vai comadre?Vai com Deus! Dê lembraças minha à minha afilhada. Nem na hora da morte o coitado tem quem o socorra! Tá lá morrendo feito onça ferida.Numa hora desta nem os parentes aparecem.É na morte que os parentes são os melhores.Choram,elogiam,contam metiras.A gente tem que fazer pro sujeito,enquanto ainda vive.Depois de morto o defunto não precisa de mais nada.Só de terra.Senão fica apodrecendo e fedendo pelos cantos.Se tem Jesus,tem esperança de uma outra vida melhor.É descançar nos braços do pai que é bom.O resto é restolho.

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Wednesday, October 8, 2008

CENA I

TEREZA: Acordou disposta hoje?Está aí olhando pro céu com cara de quem chupou uva.
ELVIRA:-Estou sempre com disposisão! Eu não diria uva Tereza!
TEREZA:-Ontem parecia com o diabo no corpo.Aquela saliência toda.
ELVIRA:-Hoje não quero discutir nada.Cada um tem o seu dia de reflexão.É Deus por nós,e o resto que se assuma.Quero hoje é aproveitar.Amanhã estrei bem longe disto tudo.Pelo menos levo alguma coisa boa pra me lembrar.Estou enojada com esse ar pesado,assoprando defuntos.
TEREZA:-Meu Deus,já é amanhã!O tempo passou como o vento. Hoje noite vai visitar a minha igreja né!
ELVIRA:-De jeito nenhum! Deixei a noite pra visitar a prima Ritinha.Amanhã sacudo a poeira.Saiu bem cedo!
TEREZA:-E a promessa? Prometeste!
ELVIRA:-É que aconteceu tanta coisa,numa só semana que não deu tempo nem pra pensar.Amanhã viajo mesmo.
TEREZA:-Queria tanto apresentá-la ao meu pastor.Falei de ti com tanta alegria.
ELVIRA:-Pois é! Da próxima vez eu visito a sua tão aclamada igreja.Desta vez não dá.Tentei Tereza,mas não se pode fazer tudo ao mesmo tempo.Ou abro o sorriso,ou me desaguo em lágrimas.Uma coisa de cada vez,não mais.
TEREZA:-Que se é de fazer.Mas hoje almoça comigo?Desde que chegou só fica
pra lá e pra cá.Comeu aqui só no dia que chegou
ELVIRA:-Fica tudo mundo querendo que almoço na casa deles.Sou uma só gente!
Joãozinho me espera lá hoje.
TEREZA:-Joãozinho!!!A mulher dele sabe que andanvam amassando mato?
ELVIRA:-Coisas do passado.A gente esquece.Remexer é sofre de novo.
TEREZA:-Dizem que a mulher nunca esquece a quele que foi o seu primeiro homem.
ELVIRA:-Por isso não foi ao enterro do coronel?Quem lhe disse que Joãozinho
foi o primeiro na minha vida?
TEREZA:-A gente imagina.Vivia os dois agarrados…as suas insinuações não me supreende…Se não foi ele,quem foi?
ELVIRA:-Por hoje chega de recordações.Não foi o mesmo que pôs uma criança na sua barriga?Se não é a mamãe,Deus sabe lá o seria de ti.
TEREZA:-Vou começar o almoço.Vou começar o almoço! Já que vai comer por lá mesmo?
ELVIRA:-E a sua a curiosidade? Fica sem resposta?
TEREZA:-Panela que muitos mexem,queima,ou fica salgada.
ELVIRA:-Então até!(Ela sai.Tereza corre pra janela)
TEREZA:-Bom dia dona Maria das coves! Que noite hein!Acabou de sair.Só fica na rua, de casa em casa.Faço tudo pra mantê-la aqui comigo, ela parece não gostar da minha casa.Faço o que posso.,Obrigar não posso. E o tal do homem,morreu.Não tenho ouvido mais gritos.Como
assim dona Maria? O padre levou lá pra igreja?Esse padre é louco!
Além de rezar missa em latim,entope a igreja de escarnecedores.Adoredores do diabo.Sem contar as
donzelas que deixou embarrigadas por ai.Eu sei dona maria.
Devemos amar o próximo como a nós mesmo.Tá,tá escrito! Mas,
Esse só pode ser próximo do cão.Me admira a senhora com uma
conversa desta.Porque não levou pra casa da senhora então?
já tá no inferno! A senhora não lê a Biblia né! É rude de tudo.Leio
sim.Pelo menos sei ajuntar as letras.Dá pra ler sim.A senhora nem
isto sabe.Se pelo menos soubesse escrever o nome. Vai cuidar das suas couves! Ao ínves de ficar cuidando da vida alheia,não vai tirar os piolhos das suas couves.Com licênça dona Maria das coves.(Fecha a jenela)Gente iguinorante! Onde jé se viu colocar um moribundo na companhia da gente.É louco de pedra
esse padre.Pra quem reza missa em latim.Pode se esparar tudo.(Ela abre a
janela novamente) Hei menino! menino,venha cá! Vê em que casa Elvira está.Na volta,passa na igreja,pergunte o padre como o homem está.Ora que homem?
Juventino,o que foi esfaqueado na venda.Quando voltar lhe dou um ovo,se a galinha botar.Tá bem dou dois! Vá logo,vai!…A paz do senhor Comadre Ana.Pois é! Ainda nem bem o padre Eusebiu é plantado,já se prepara festa pro padre novato.Se bem que o padre Eusebiu já passava o dia pulgando os pecados da carne.Aí o coranel morre.Põe água no fogo,a festa acaba.É tanta enchente em tão poucos dias.Não há terra que suporte.É comadre,a gente tá precisando orar mais pra este lugar.O diabo anda em derredor.(A dona Ana sai),ô comadre!..Me deixou falando sozinha!

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CENA II

TEREZA: Será que o homem ja foi desta pra melh…no caso dele é pra pior mesmo?
ELVIRA:-Vai lá ver.
TEREZA:-Deus me livre!Sangue de jesus tem poder!Naquele antro de perdição?
ELVIRA:-Não entendo esses vocês.Jesus não disse: amar ao próximo com a ti
mesmo?Amar ao próximo Maria tereza,é querer tudo aquilo que
queremos para nós.É sentir por ele o mesmo que sentimos por nós.
É dar a ele, aquilo que almejamos para nós.Como a ti mesmo.É
como se o próximo fosse parte de ti.Se ama alguém assim.
Não vai querer mal à ele.Aquilo que não quer para si,não quer
para ele,o seu próximo.Se você não ama ao seu irmão que ver.
Não pode amar a Deus que não vê.Lembra da parábola do bom
samaritano?O padre, talvez! Talvez,tá! Seja o tal samaritano.Mas,o
coração do homem é enganoso.Ele pode está querendo limpar
a sujeira que fez quando chegou. A recusa,a missa em latim.O desconforto.E é um ato de amor sim.Quem assim aje,
cumpre os dois mandamentos:amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo
como a ti mesmo.Cumprindo as profecias e os profetas.
TEREZA:-O passarinho coitado!Esqueci o coitado!Sabia qua já tava na hora,
mas,nem dei conta do atraso.Vai acabar morrendo se não me
apressar.Vou ver,já volto!Fiz um mingauzinho p’rocê besta.
Tá quentinho já volto tá!(Ela sai,demora um pouco e volta)
Agasalhei o bichinho.Se a gente não cuida,morre.(Vai até a
cozinha.Volta com um prato de mingau)Fiz p’rocê! Coma enquanto tá
quentinho.Hoje é dia de frio né!Tem dia que venta tanto.
se chove,Deus me livre! A rua fica que é lama só Ainda bem que não me descuido.(Elvira come o mingau,sente uma sonolência).
Quer dizer então que amanhã bem cedo embarca.O cata osso sai
muito cedo.Tem de descansar.Amanhã será dia de folga.tá é com
sono.Do jeito que anda.Tinha mesmo que ficar.Vai dormir lá na cama.
Vou lhe ajudar.Magrinha,mas é pesada.Depois levo a sua bolsa.Numa cidade nanica feito uma cabaça,é preciso carregar bolsa?Depois,quando for embora,vai ficar todo mundo falando.

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Monday, September 22, 2008

ATO III

A CADELA.

TEREZA:-(Abre a janela) Bom dia sol! Bom dia! (Vai passando dona Ana)Bom dia comadre Ana! Não parece que tudo mudou de repente? As borboletas estão mudando de cor. Ih,já deve tá beijando o marido!…Maria Elvira ainda não tem filho.Saiu cedinho,cedinho.A senhora sabe, quando não atrasa,o cata osso,sai no horário.Coitadinha da Elvira,saiu cochilando.Se né eu que acordo cedo,tinha perdido o cata osso.E o homem comadre? Até que enfim hein!Já enterrou também? Nem velório teve?Aquele já tava morto mesmo.Só faltava cair.Sofreu o coitado.Pulgou bem os pecados que tinha.Sabe que Elvira tinha razão!Alguém precisava ajudar aquele onça.Não ficava bem ali no canto gritando feito cão ferido.Pelo menos lá na igreja,os gritos foram abafados.É comadre,se não é por Jesus,não sei o que seria de mim.Pois é! Já tô acostumada a vida sozinha.Fazer falta,vai sim.A gente acostuma com tudo né!.Com a morte é que não há meio de se acostumar.Vou levando conforme Deus quer.Vou ter menos pra fazer.Ela disse que volta um dia desses.Disse pras pessoas da cidade é.Pra mim Maria Elvira nunca diz nada mesmo.Ela não saía das casas dos outros.Pra eles,a saudade vai ser maior.Aqui ela mal comia comadre.Usou aminha casa feito pensão mesmo,mas só pra dormir..Entrava e saía.É comadre! Parente,a gente tem de aturar não é!Mas, ela se foi.Agora a vida é outra.O rio continua no seu curso natural.Né passarinho verde não comadre.Não sei o que deu em mim.Levantei com vontade de varrer a casa.Lavar as roupas de cama.Dar bom dia a tudo.É por alívio não.Aqui no fundo do coração,tem um pontinho de saudade.Então tá comadre!A paz do senhor pra senhora também.Ê seu Juca! A muleta continha em baixo do braço!Se tivesse ido à igreja,estava por ai saltando feito cabrito.”Eis que estou à porta,e bato,se alguém abrir a porta,entro”.Fui eu não. Foi Jesus que disse seu Juca.As pessoas esperar a doença cair pra depois buscar o médico não é mesmo?Pro senhor também.A gente dá o remédio,eles não tomam.Depois quer ver o milagre acontecer.Não há causa sem êfeito.Pra que o milagre aconteça,a gente tem de fazer a nossa parte.Não vai à igreja,quer que a gente ore é de longe.Pois bem! Essa gente não aprende nada.

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CENA I

TEREZA-Este quarto,é o que tem mais conforto.Nem falo da cama larga.
Do banheiro.Mas, do conforto e do silêncio.Aqui nada se ouve.Quando
a gente quer comer.É só puxar a cordinha ali,vai dar diretamente
na cozinha.Pra buscar,é a mesma coisa,os pratos sobem parede
acima.
ELVIRA:-Tô com corpo todo moído! Que horas são Tereza?
TEREZA:Isto agora não importa. Aqui em baixo, o tempo é sem valor.
ELVIRA:-Marquei de almoçar com a dona Maria das coves.
A mulher vai ficar uma fera, se a deixo esperando.Amanhã,adeus descanso.
TEREZA:-Tem uma coisa que ocê precisa ficar sabendo.(Ela interronpe)
ELVIRA:-Dormi feito pedra…E o que é?
TEREZA:-Não sabe que todo mundo aqui,já dá a sua sumida,como quem foi embora?
ELVIRA:-Minha o que?
TEREZA:-Num foi ocê quem pegou o cata osso,a três dias atrás?Num foi ocê quem se despediu de tomundo e foi embora?
ELVIRA:-Tá louca é? Como fui embora,se acordo aqui.De camisola,meio tonta,e…Esse corpo todo moído,parecendo que levei uma surra de vara verde.
TEREZA:-É!….Precisamos acertar as coisas mesmo.De agora em diante,vou cuidar d’ocê como quem cuida d’uma florzinha delicada,e frágil.Ocê vai se render a Jesus.Ocê é a única pessoa que tenho na família.A minha salvação,é tua salvação.Não posso ir à Deus deixando a última ovelhinha pra trás.E quando aceitar ao senhor jesus como o seu único salvador.Aí cê vai comigo à igreja e será a maior satisfação.Uma alma será salva,e haverá festa no céu.Sabia que pra cada alma salva há uma festa no céu?
Apresento-a ao pastor.Ocê aceita Jesus como seu
único salvador.Só isso!Tem nada demais?E é pro seu bem que faço assim.Nós vamos morar no céu Maria Elvira.Vamos nos encontrar com
Jesus nos altos,juntas.Cê anda muito magrinha.Vou
lhe entupir de comida,até engordar.Vai ficar como eu.Aí,só aí, lhe levo
à igreja.Não vou querer tudo mundo rindo na minha cara,dizendo que lhe matei de fome? Não,a gente vai ficar juntas minha irmã,juntas!
ELVIRA:-Fico imaginado a cara que a mamãe faria,se estivesse aqui,e ouvisse o que acabo de ouvir.É de brincadeira,não é?Vou sair,tem uma pessoa que muito estimo, a minha espera.
TEREZA:-Não tem ninguém a lhe esperar.Cê tá na sua casa lá da cidade grande.Numa hora dessa, está beijando, e cozinhando para o seu marido.Se é que ocê faz comida pra ele.
Aqui todo mundo sabe a vida de todo mundo.Era uma cidade tranqüila,até ocê chegar.Ocê precisar fazer jejum,e oração pra tirar o diabo do corpo.Sua vinda pra cá trouxe morte à esta cidade.A primeira vitíma foi o Padre Eusebiu,o coronel Deudato.Depois o Juventino.Foi só descer do cata osso,pra os ventos da morte descer contigo.
É preciso Maria Elvira…é preciso tirar o diabo de dentro do seu
coração.Cabeça vazia,é oficina de satanas.Aqui em baixo,vai
poder se curar.Vamos lavar seus pecados no sangue de Jesus.
Será outra,tuas vestes serão lavadas no sangue de Jesus.
A honra desta família será restituida.A moral e os bons costumes.
ELVIRA:-Que maluquice está me dizendo?Recuso-me a crer nisto! Não estou aqui pra ouvir tamanha asneira.Não me obrigue a engrossar.
TEREZA:-Magrinha do jeito que é,não vou precisar fazer muita força.
ELVIRA:-Vai me bater?
TEREZA:-Se precisar,vou.Deu-lhe um pescoção!
ELVIRA:-Sai da porta Tê.Por favor,me deixa passar!
TEREZA:-Agora me chama de Tê né.No dia que pedi,zombou de mim.Tem mais essa de Tê não.Nem marmeda tem mais.Agora é a hora da conversão.É Jesus que está no comando agora.
Deus é de prova que faço isto pro seu bem,nada mais.Devia é me agradecer por pensar na sua saúde,e na sua salvação.nem nisto cê pensa.Estou esvaziado a sua cova.Nossos corpos serão
transformados.Outros morreram a nossa morte.Nós ressucitaremos em Cristo Jesus.Querida irmã.Tenha uma boa noite!Coma o mingau enquan…já esfriou!Agarramos a conversar.Esqueci de olhar o mingau.Vou preparar outro.
ELVIRA:-Precisa não.Não vou comer até que me deixe sair.
TEREZA:-Bom! É bom,jejum santifica e purifica.Vou trazer assim mesmo.
(Tereza sai,tranca a porta por fora)
ELVIRA:–Ela põe alguma coisa nessa bendito mingau!É só eu comer pra me sentir,fraca e com sono.Tereza,foi sempre muito esquisita.Fazia coisas errada,e negava quando a mãe perguntava.Tudo mundo sabia que era ela,mas negava. Essa gente acha que Jesus é um pedaço de torta.Uma fatia de mortandela.Um brinquedo que a gente oferece e a pessoa aceita.Aceitar Jesus! Não é Jesus quem devia aceitar a gente? É a pessoa que deve dar o primeiro passo,e é de livre escolha.

Posted by Camuccelli at 19:53:31 | Permalink | No Comments »