Thursday, November 13, 2008

                             TÊ 

Uma cadela mansa,jamais ataca uma pessoa.Ela lhe deixar se achegar à ela.Até lambe a sua mão.Quando a gente menos espera,ela chega de mansinho,morde o calcanhar da pessoa.

(Maria tereza está à janela olhando quem passa.Vai dizendo bom dia, um a um).
TEREZA:-Bom dia seu Jenuino! Como é,colhe ou colhe a roça? Com a geada que tem dado né mesmo!Esse aí planta dois grãos de milho,quer colher duas toneladas.Tem a paciência! Bom dia Dona Aurora! Tá vindo aí! O cata osso inda não chegou.Sabe como é,tem dia que atrasa,tem dia fura pneu no caminho, e nem vem. É Maria Elvira a minha irmão que vem passar o fim de semana aqui comigo.Nesta cidade, o sossego que é,serve de refresco pra que vem.Lá na cidade dela é…a paz do Senhor pastor!Olhe nesta semana não vou poder ajudar na igreja.Vou ter que fazer gosto a Maria Elvira,minha irmã!…a cidade dela…olha lá! Vem ele fumegando feito maria-fumaça.(Ônibus pára diante da venda.Tereza vê a irmã sair do ônibus.Fecha a janela.A irmã bate uma vez,duas vezes.Na terceira vez Tereza abre a porta)
ELVIRA:-Pensei que não morasse mais aqui.Deus me livre fazer o trajeto todo de volta.Eu não ia suportar.Quanta poeira há nestas estradas.Parece que a gente está dentro de uma maquina de lavar roupa.
TEREZA:-Meu Deus do céu,é ocê Maria Elvira?Tava na cozinha passando o café.Nossa,como cê tá magrinha! Como esses brancinhos conseguiram carregar estas duas malas da venda até aqui? Devia ter pedido,que seu Juca mandava o menino ajudar.Pra que tanta mala?Pra quem vai ficar só um fim de semana! Deve de tá entupida de roupa.Aqui não tem nada pra ver.Essa cidade é muito quieta.De vez enquanto morre um pra tirar o sossego da gente.Cidade de pouca gente.
ELVIRA:-Talvez não fique nem uma semana.
TEREZA:-Deixa estas malas aí.Vem cá pra cozinha.O café tá pronto!Cê deve de tá cançada.Viajou a noite toda. Esse cata osso parece um moinho d’água.Se quiser tem sabão,toalha e água é o que não falta.Vai lavar o rosto e as mãos.(Ela vai até o banheiro,volta com as mãos pingando água)Toma a toalha,enxuga estas mãos.(Pega o pano de chão e vai secando as gotas)Meu ladrilho,meu ladrilho!
ELVIRA:-Descansa Tereza!Nem ladrilho isto é.Ardósia é que é!
TEREZA:-Pode me chamar de TÊ,é curtinho.Bonito, e fácil de pronunciar.Todo mundo aqui me chama de Tê.
ELVIRA:-Eu sempre a chamei deTereza.Não é agora que vou mudar
TEREZA:-Não custa nada! Vou levar a mala lá pro quarto.Que tem dentro? É chumbo é?Nossa que peso!

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ATO I

DE CORPO PRESENTE:

                                         CENA I

(Tereza está na janela, vê um menino correndo, grita).
TEREZA:-Vai pra onde com essa pressa toda? Ouvi,claro que ouvi!
É o sino tocando pra anunciar a chegada do padre?
Quem menino?O coronel Deudato da Fonseca o que? Caiu o que? Morto?..
Espera aí menino,espera aí. Fala mais devagar! Pára de correr e fala menino!
ELVIRA:-Quem caiu morto Tereza?
TEREZA:-Tô tão acostumada com quem me chama de
Tê,que até me esqueço que me chamo Tereza.O coronel Deudato da
fonseca caiu morto!Tava dando milho pra galinhas.Caiu com a língua de
fora.Morreu!O homem tá no inferno.Nunca fez nada de bom pra esta cidade.
E o padre já começa com um defunto pra encomendar.
Já vai….Olha lá o
cata osso já chegou.É o padre descendo com uma mala na mão.É
moço!Muito moço o coitado.Tá aproximando,tá aproximando! Boa tarde seu
padre! Fez boa viagem?Chega sempre atrasado seu padre,quando não quebra
no caminho,atrasa.(Dirigindo-se a Elvira)Só abanou a cabeça.Padre
metido! É o que eu digo,salvos aqui,só nós os Batista.O resto,Deus tenha
piedade,estão é no inferno.Mas ainda há tempo,se se converter de todos
os seus pecados.
ELVIRA:-Vou tomar um banho,me vestir,sair por aí pra ver,e ouvir as novidades.E conhecer o tal padre.
TEREZA:-Trocar de roupa pra que? Esta ainda tá limpinha!É casada,mas não honra o nome do marido.Basta sentir cheiro de homens que já se arreganha toda.Essa aí não consegue se manter de pernas fechada.
ELVIRA:–(Chega à porta enrolada numa toalha) Ouvi viu! Com a mesma medida que mede,será medida.A boca fala do que está cheio o coração.
TEREZA:–Eu hein! Agora essa!

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CENA II

TEREZA:-( à janela) Bom dia seu Juca! E as crianças?O senhor continua a mancar?
Tô vendo! Vá à igreja seu juca!O pastor faz uma oração forte,o senhor vai ficar curado.Joga esta moleta fora seu Juca.Com jesus tudo é possível!Vai mesmo,vou ficar esperando…Vai indo dona Maria da coves.Pois é, se fosse na fazendo do falecido,eu ia.Em casa de pecadores não entro.No cemitério que nos recebe de braços abertos…Hi foi? Essa gente não respeita nem os mortos.Vou ficar esperando hein!
ELVIRA:-De que respeito está falando?
TEREZA:-É dona Maria das coves me dizendo que foi uma confusão no velório.
ELVIRA:-Acabou logo.Um homem quis apontar qualidades e defeitos do coronel.
TEREZA:-E a missa foi rezada?
ELIVIRA:-Em latim!O padre disse que não tem costume com esse tipo de
situação.Rezou a missa em latim.De costas para o povo.Dizia
palavras que ninguém entendia.Foi uma missa de velório mesmo.Língua morta, para um morto indecente.
TEREZA:-Deus me livre! Latim não a língua falada pelos padres na cidade dos padres?
ELVIRA:-É uma língua morta.Ninguém fala mais…Estive pensando enquanto olhava a cara do coronel!..Uma coisinhas!!!Quantas crianças retiraram balas na algibeira do coronel?Ele mandava a criança enfiar a mão dentro da algibeira.Bala mesmo a coitada não pegava.Ainda te lembras Maria Tereza?
TEREZA:-Que cheiro esquisito tô sentindo aqui.Tá com jeito de telha queimada.
ELVIRA:-A coitada da mamãe correndo contigo pra tirar a criança,filho do coronel?O papai não podia saber…Ah,Tereza!
Nenhuma criança aqui escapou das balas do coronel.Nem eu! Pra mim era estímulo.Como eu gostava de procurar as balas na algibeira do coronel.
TEREZA:-Tem rato morto em baixo desta cadeira.(Procura o rato)Será a minha mão? Lavei as minhas mãos inda agora.
ELVIRA:-Uma noite pra relembrar.E o coronel?.. Se regenerou Tereza?Falo de continuar colocando balas na algibeira…Não,as crianças de hoje são mais sabidas.
TEREZA:-Passando pano no assoalho deve tirar o cheiro.Cheiro de rato morto empestea toda a região.E dona Maria das coves que não vem.Esse rato tá precisando é de uma ratoeira..Tão símples é vida,que a gente nem percebe..E o trabalho que dá pra criar uma criança nos dias de hoje.Será que a dona Maria das Coves se esqueceu de mim?
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ATO II

REVELAÇÃO 20:3

TEREZA:-Vai sai? Trocou de roupa.Essa menina pensa que aqui é cidade grande.
Troca de roupa,como quem troca o perfume.
ELVIRA:-É pra ser apreciada mesmo.De proposito!Gosto de sair limpinha.
(Elvira sai,Tereza vai pra janela)
TEREZA:-Vê se não volta tarde.Não vou ficar esperando, até tarde da noite.
como vai comadre Ana?Que foi aquilo comadre?Gente gritando feito cachorros brigando.O Juventino é? Que fez o Juventino desta vez?Foi esfaqueado? por quem comadre?Deus
me livre.Um dia isto tinha que acontecer.O homem gostava de fazer os outros beberem a força.Se não bebia,ele esfaqueava.Gostava de bater na cara dos bestas daqui.E nem morar aqui mora.Ele pega o seu cavalo e vem pra cá berber,raparigar e insultar os besta desta cidade.Quando o coranel era vivo, peitava o valente.Agora com o coronel morto.Ainda bem que apareceu um de coragem.Ou…Agora é orar pro cão morrer,senão coitado do camarada…quem foi mesmo comadre Ana?Ninguém viu?O povo tá é com medo de delatar o bem feitor. Ouvi! E aquilo era pedindo água? Deus me livre,vou lá não! Agora é um morto atrás do outro.O cemitério não vai mais cabê tanta gente.Duma hora pra outra,né comadre? E ninguém sabe como isto acaba. Cadê os homens que não acode o malvado?Já vai comadre?Vai com Deus! Dê lembraças minha à minha afilhada. Nem na hora da morte o coitado tem quem o socorra! Tá lá morrendo feito onça ferida.Numa hora desta nem os parentes aparecem.É na morte que os parentes são os melhores.Choram,elogiam,contam metiras.A gente tem que fazer pro sujeito,enquanto ainda vive.Depois de morto o defunto não precisa de mais nada.Só de terra.Senão fica apodrecendo e fedendo pelos cantos.Se tem Jesus,tem esperança de uma outra vida melhor.É descançar nos braços do pai que é bom.O resto é restolho.

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