CENA VII
SÔ CHICO:-Fiquei Foi sozim! Sozim,sozim mesmo num fiquei.
Divaldo vem cá pra tomar conta de mim.Tudo vem assim do nada.
Sopra e toma conta do corpo da gente.Pra viver só,a gente que ter muito dinheiro.
Pra poder gastar com o que quiser.Gozar bem a vida.Divaldo!…
É como se ele fosse as minhas pernas.Os meus olhos ainda me deixa ver.
É ele quem faz tudo aqui pra mim.É..hoje completa um ano!
Depois que Mereciana morreu,a vida mudou.
Ela deu de ir lá pra capital visitar o irmão.
Por lá mesmo morreu atropelada por uma carreta desgovernada.
Agora tô aqui nesta cadeira de rodas.
Divaldo me mandou fazer um chá bem quente,
e tomar.Depois me deitar por debaixo dos cobertores,
que a gente soa,o difruço passa.Não é que me esqueci,
sai de debaixo dos cobertores e fiquei completamente entrevado.
Assim é que entendo a vaca caída no atoleiro sem ter com quem contar.
Mas,Divaldo é alma boa.É tudo pra mim.
Sem ele sabe eu o que seria desta vida de sofrimento.
Tem outros empregados,mas é o mesmo que não ter.
Divaldo é o filho que me falta agora.
O pior memo é quando a noite vem.
De noite ele não pode ficar.Tem os seus afazeres.
Sem contar que agora é ele quem toma conta da fazenda toda.
Reclamo não!Deus me livre de reclamar!
Vou levando a vida até a hora que Deus quiser.
NISTO,SEM QUE SÕ CHICO NOTASSE,
EDVALDO VAI ENTRADO COM UMA SELA NAS COSTAS.
EDVALDO:Reclamado de mim Sô Chico?
SÔ CHICO:-É comigo mesmo que tô falando moço.
Tava mesmo pensando nocê.Foi por isso que falei de voz alta.
EDVALDO:-Me parece que o dia começou bem hoje.
SÔ CHICO:-Teve algum tropeço no caminho?
EDVALDO:-Tô só achando que num dia como este,
é bom ter alguem pra chamuscar.
SÔ CHICO:-Cê tem cada ideia Divaldo! Não encontrou o danado,encontrou?
EDVALDO:-O senhor não acha que passou tempo demais pra isto
Quem fez,fez bem feito e sumiu.
Esses dias o meu coração tem brigado muito comigo.
SÔ CHICO:-Que diacho de conversa atravessada é essa moço?
EDVALDO:-Né de agora não.Faz muito tempo.
Depois andam dizendo que o coração do homem é enganoso.
A gente pensa que o camarada é amigo da gente.
Que a gente tem certeza de sua amizade.
É tudo engano,é conversa fiada.Aí vem a dor.
Aí vem a verdade arrancada do chão.É um golpe.
Não existe nada pior do que a verdade.
a verdade que liberta é a mesma que mata.
É arrancar o mal pela raiz.Senão a gente mofina e morre.
SÔ CHICO:-Tem hora que ocê me deixa besta.
Tá falando de que verdade moço?
EDVALDO:-É de nós seu Chico.É de nós!
SÔ CHICO:-Agora é que não entendo nada mesmo.Endoidou moço?
EDVALDO:-A minha verdade, tem uma diferencia da do senhor.
Da minha já tomei posse.Já tô acaminho da vitória.
SÔ CHICO:-Não tem claraza.Sei nada não do que tá falando.
EDVALDO:-Bicho macho a gente mata,
que é pra não atocaiar a gente na calada da noite.
SÔ CHICO:-Agora tô começando a entender essa conversa misturada.
Cê achou o maldito,quer me esconder a verdade.
EDVALDO:-O se alembra do ano passado?
O um sem mãe falou na venda do seu Pedro,não tá se lembrando?
SÔ CHICO:- É água de muito tempo.Não serve mais pra beber.
E foi tudo de brincadeira.
EDVALDO:-Pro senhor poe ser.Pra mim é água de agora.
Deste momento entende?O senhor disse que eu gostava mesmo era de ôme.
Que eu sou “FLOZÔ”Nas raparigas daqui eu nem mexo.
O senhor não pensou que um dia seu Pedro ia me contar a verdade.
E tnha jurado na campa da minha mãe,que o desgraçado eu matava.
SÔ CHICO:-Era só de brncadeira moço.
Aonde é que eu ia dizer uma coisa dessa de verdade.Justo docê.
EDVALDO:-A hora de um home não tem preço Seu Chico.
O homem pode perde qualquer bem.Mas,a honra e carater não.
É tudo que o homem tem.
CENA VIII
SÔ CHICO:-Eu jamais vi homem tão macho.
EDVALDO:-O que não quero,é me casar.Que mal há no homem de não querer se casar Seu chico?Se…
se o senhor tivesse desmentido quando ainda podia!Mas,não,
o senhor dixou que o tempo comesse os defuntos.
É água jogada em terra seca, nasce mais nada não.
SÔ CHICO:-E de que adianta chorar?O que vem a ser a sua verdade divaldo?
EDVALDO:-É uma dentro da outra.Se o roçada na hora da capina,não tiver de pronto.
O milho,o feijão..e tudo que ali foi plantado, morre abafado pelo mato.
E a terra já foi arada.Os marcos colocados.
Tem nada mais pra fazer não.Tá feito,tá feito!
SÔ CHICO:-Ocê tá mesmo é querendo me enrolar com essa conversa besta.
O maldito que encontrou,deve de tá lá acoitado,num lugar qualquer.
Já ví,que é ocê quem quer fazer o serviço.
EDVALDO:-Não tô querendo falar disto.
Querendo mesmo é voltar lá aonde tudo começou.
No principio,da ven..(ELE INTERROMPE)
SÔ CHICO:- Já não disse que era só de brincadeira.Acabou Divaldo,acabou!
EDVALDO:-Essa brincadeira,que custou muito caro.Se eu mexer,remexer a terra,
não vou botar de volta a verdade moída,dura e crua.
SÔ CHICO:-Ocê é como um filho pra mim.É as pernas que perdi.
Ocê é tudo que eu tenho neste mundo Divaldo.Sem a sua ajuda,
eu não tava mais aqui.É muito importante pra mim
EDVALDO:-É tarde! a sua vida foi deformada.a minha também foi.
Mesmo se eu quisesse não ia poder voltar atras.a maldade já foi feita.
Naquela mesma noite Seu Chico.Seu filho tinha saido
(EDVALDO COMEÇA ACONTAR O FATO),da casa duma mulher casada.
fiquei lá a espera dele por muitas horas.Ele chegou.
Caminhamos e conversamos.Conversamos e caminhamos.
Era do custume ele me encontrar ai pelo caminho.
Aconselhei o moço a não ficar nesta de mulher casada.
Ele não gostou.fui amaciando o moço,assim como se faz pra pegar peixe no ceveiro.
Ou rolinha na arapuca.Ai ele caiu na minha armadilha.
O resto o senhor sabe.
SÔ CHICO
DEPOIS DE OUVIR,SUSPIRA CALDO)Me deu foi uma sede danada,assim d’uma ora pra outra.
Ocê num pode me busca a água Divaldo.Tô c’oa goela seca,seca.
(EDVALDO VAI ATÉ A COZINHA.VOLTA COM O COPO COM A ÁGUA).
EDVALDO:-Agora isto daqui (RETIRA DO BOLSO ALGUNS PAPEIS ENQUANTO SÔ CHICO BEBE A ÁGUA)
.O moço lá do cartório disse que é pro senhor assinar pra mim.
Aqui diz que tá passando tudo aquilo que pertence ao senhor,pra mim.
É tudo meu. Se não quiser assinar,tem importancia não.O dedão do senhor serve.
SÔ CHICO:-Que estará fazendo meu filho que num chega?Pela hora que saiu já devia ter voltado.
Viu ele hoje não Divaldo?EDVALDO:-Não sei;acaso,sou eu tutor de filho seu?
SÔ CHICO:-É,a gente cria os filhos é pro mundo!Era do caso do cartório que tava me contando,né Divaldo?Confirma que a fazenda é minha.O maldito já foi enterrado.EDVALDO:-
Se o senhor conseguir se livrar da onça esfomeada.É bem possivel.
Estuciei tudo.Pensei cá comigo! Ponho Seu Chico na sua cadeirinha.
Levo lá pra onde a onça está esperando pela comida.Deixo lá por um dia.
Depois vou com alguns camaradas,como quem nada sabe.
Esbarro com o corpo estraçalhado,de pescoço cortado.O senhor já assinou.
Tá ai no papel a marca do dedão do senhor.Pronto!SÔ CHICO:-Então
(Como quem está em trase),a lua ficará vermelha de sangue.Enterramos o finado.
É nossa a fazenda.É só ocê pra pensar assim!(Edvaldo pega nas astes da cadeira,
como quem vai conduzí-la pra dentro da casa.Retira uma navalha do bolso.
Corta a garganta de Sô Chico olhando para frente.
CAI O PANO